Saturday, July 24, 2021

Os contrabandistas lucram com o desespero dos migrantes haitianos no Brasil


 

Os contrabandistas lucram com o desespero dos migrantes haitianos no Brasil









Autoridades governamentais no Brasil dizem que os contrabandistas estão transportando migrantes haitianos através da fronteira do país com o Peru, já que muitos deles dão um primeiro passo na perigosa viagem para o norte, em direção aos Estados Unidos.



O surto levou a polícia nacional do Brasil a lançar duas operações para deter o contrabando de pessoas na região. A última operação, realizada no início de julho, viu a polícia executar cinco mandados de busca e apreensão em quatro casas e uma empresa no estado fronteiriço noroeste do Acre.



A operação vem vários meses depois de haitianos - muitos dos quais haviam passado anos no Brasil - reunidos perto da fronteira com o Brasil. Muitos estavam deixando o país devido à desaceleração econômica induzida pela pandemia e pelo sentimento crescente de anti-migração, informou a BBC.




Em fevereiro, a primeira operação ocorreu em meio à crescente cobertura da mídia nacional sobre a crise migratória na fronteira do Acre. Naquele mês, centenas de migrantes, a maioria haitianos, tentaram atravessar a Ponte de Integração Brasil-Peru apressadamente, só para serem revirados à força por soldados peruanos.



As autoridades brasileiras acusaram os contrabandistas de "contribuir para o agravamento" da ocupação da ponte, de acordo com um comunicado à imprensa.



O fechamento freqüente da fronteira para deter a propagação da COVID-19, que assolou a América do Sul, também levou migrantes a procurar contrabandistas, com migrantes pagando grandes somas de dinheiro para serem transportados através do rio Acre por barco ou contrabandeados para o Peru via Bolívia.



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Em meio à aceleração do declínio econômico no Brasil devido à pandemia, os haitianos que antes iam ao Brasil para encontrar trabalho estão agora indo para o norte - e os contrabandistas estão lucrando com a inversão deste fluxo migratório.



A partir de 2010 e 2018, a grande maioria dos cerca de 130.000 haitianos que entraram no Brasil voaram para o sul da República Dominicana para o Panamá, Equador ou Guiana. Eles então entraram no Brasil por terra ou por ar.



O terremoto de 2010 que devastou o Haiti havia levado o Brasil, necessitado de trabalhadores com baixos salários, a oferecer inicialmente vistos humanitários a muitos deles. Mais tarde, eles começaram a entrar no país ilegalmente.



O estado noroeste do Acre era um importante ponto de entrada ilegal, com entre 40 e 60 migrantes haitianos atravessando do Peru todos os dias em horários de pico. Os migrantes pagavam até 4.000 dólares a coiotes e policiais corruptos para uma passagem segura.



Agora os contrabandistas estão recebendo o êxodo haitiano do Brasil, que se tornou rápido e considerável, com milhares deixando o país para viajar para o norte através da América do Sul e Central até a fronteira EUA-México.



Por que isto está acontecendo? Especialistas argumentam que as rotas migratórias podem se reverter rapidamente à medida que as oportunidades socioeconômicas mudam dentro dos países anfitriões. Isto pode ser particularmente verdadeiro para os migrantes haitianos.



"[F]ou migrantes haitianos, o destino nem sempre é fixo, daí a natureza circulatória da migração haitiana... Portanto, o país de destino de hoje pode facilmente se tornar o ponto de trânsito de amanhã", um relatório de 2020 do Migration for Development and Equality Project, um estudo acadêmico global que pesquisa os corredores de migração no Sul Global, observou.


As mudanças políticas nos Estados Unidos também podem estar fornecendo um incentivo involuntário para que os haitianos se dirijam para o norte. Em janeiro de 2021, o número de migrantes haitianos apreendidos pela Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) dos EUA mais do que triplicou quando comparado ao mesmo mês em 2020, informou a BBC.


"Desde a transição para...o governo do [Presidente dos EUA] Joe Biden, há expectativas dos migrantes sobre uma reforma nas leis de migração dos Estados Unidos...é possível que esses migrantes que vivem no Brasil também estejam sendo encorajados a deixar o território brasileiro", disse à BBC Leticia Mamed, especialista em migração da Universidade Federal do Acre.




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